Monday, May 23, 2011

Reflexão Eleitoral

Hoje empreendi a grande maratona de ler os programas de todos os partidos com assento parlamentar.

Se ajudou a esclarecer? Claro que não, pelo contrário ainda lançou mais confusão e fiquei com vontade de votar em todos.

Voto no PS que passa o programa a queixar-se dos maus que os outros são. No capítulo de medidas ficamo-nos muito pelo "continuar", "aprofundar" e "estimular" sem nos debruçarmos em coisas concretas.

Voto no PPD pela sua bonita imagem e organização, mas com fraca funcionalidade e um grau de profundidade só comparável ao MoU. Aqui o mal não é tão grave como no PS, mas continuamos a ter exaustivas declarações de princípios ao lado de medidas concretas. Eu diria que sabem bem o que querem, mas esperam que alguém lhes diga outras...

Voto na CDU com as suas 50 medidas em tom de títulos, que levantam questões pertinentes e que revelam esta força como alguém que queremos ter nas mesas de negociações que aí vêm, quanto mais não seja, para transmitir algum contraditório.

Voto no CDS que, não fora achar que tudo devia ser empresa e o Estado um garante que nenhuma vai à falência, bem podia mudar o nome para CSD (Centro Social Democrata), de tal forma Paulo Portas se esforçou por pintar o seu passado carneirista (de Sá Carneiro!) em tons de azul alaranjado (cof!).

Quanto ao BE... Bom, cansei da choraminguice ao fim de 2 capítulos! Os pontos válidos (e os menos válidos) são sufocado por medida/reflexão terem de incluir "porque eles são maus, maus, maus". Enfim... Sintomas!

Claro que me recuso, ideologicamente, a tratar o PPD por PSD, porque por aquelas bandas a "SD" deve estar na mesma gaveta em que o outro enfiou o "S" do PS...

Tuesday, April 12, 2011

Fernando igNobel?

Fernando Nobre aceitou o convite do PSD para liderar a lista de Lisboa às legislativas. Até aqui é um cidadão a aceitar o convite de um partido para exercer um pouco de cidadania activa.

Nas presidenciais Nobre surgiu como o elemento politicamente neutro, numa eleição em que defendia as suas ideias. Apesar da sombra do FMI que paira sobre nós, as legislativas não são (ou não podem ser) espaço para julgamentos de personalidades, sob risco de nos esquecermos de promessas feitas simplesmente porque não as lemos.

Quanto a Nobre, veremos como defende as ideias do PSD. Na altura das presidenciais sabemos que discordava da visão de Pedro Passos Coelho sobre, por exemplo, o sistema de saúde, mas nessa altura também pensava assim:



Thursday, April 7, 2011

FMI está já aí!

Dia 5 de Junho (ou antes para quem o faz à distância) vamos ver como anda a memória dos portugueses. Ficar em casa é concordar com o resultado, seja ele qual for. Seja ele qual for, se a postura de votar nos partidos como se estivéssemos a votar num clube se mantiver, então que aí vem, não haja enganos, é mais do mesmo. Mais daquilo que nos levou a este ponto, em que se chumba um ataque aos portugueses (PEC IV) porque não ataca o suficiente...

Até lá ficam-nos as memórias da (pen)última passagem do FMI por terras lusas:


Thursday, March 17, 2011

Jovens Determinados

«Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar» (Cavaco Silva, 15-Março-2011)

Ao meu caro Presidente da República, recomendo apenas que, deixe os jornais por cinco minutos, e se deleite com este poema da Sophia (de Mello Breyner Andresen), datado de 1977.


Partiu vivo jovem forte
Voltou bem grave e calado
Com morte no passaporte

Sua morte nos jornais
Surgiu em letra pequena
É preciso que o país
Tenha a consciência serena








Tuesday, March 15, 2011

Os Homens e a Luta (Parte II)

De um ponto de vista de personagem, Neto e Falâncio movem uma enorme massa humana, mas será que essa enorme massa humana se revê de facto na música?

A pergunta surge porque quem trouxe para a ribalta estes artistas foi um concurso que, convenha-se, há muito que prima pelo perfil tímido e que se apresenta mais como uma coisa que tem de ser do que algo que merece ser disputado. Nada a ver com outros tempos...

Uma análise cuidada às regras do concurso dizem que os Homens da Luta foram vencedores a cumprir as regras (como Fernando Tordo notou na RTP, logo eles que são tão famosos por as esticarem) e as regras diziam que o público tinha peso na matéria. Eu poderia partir para o comentário demasiado fácil e dizer que se calhar devíamos ter um parlamento mais como o festival, mas não o vou fazer... Cientes disso os Homens da Luta iniciaram uma campanha para que os seus fans votassem neles. A campanha deles não foram duas mensagens no facebook uma semana antes dos resultados! A campanha deles foi repetida à exaustão, um convite a irem ao site do festival (onde todas as músicas estavam representadas), a votarem neles para, primeiro, serem escolhidos, então, para ganharem. Foi uma abordagem muito profissional, como diz Paulo Morais no seu blog (Marketing Digital: Uma lição dos Homens da Luta para vencer na rede).


Tentar que música A Luta é Alegria não vá ao Festival como representante luso funciona quase como elogio à música e confere-lhe uma aura que ela não tem, fazendo lembrar outras touradas... Face ao que eles já fizeram a música nada tem de revolucionário e/ou político. Como as regras do festival determinam. Se quem ouve esta músia ali revê qualidades políticas, então quando ouve o L-Pod deve ficar com os pelos do rabo eriçados!

O L-Pod, para quem não sabe é o (esse sim) revolucionário álbum, distribuído num bonito leitor de MP3 com espaço ainda para juntar o hino festivaleiro, umas quantas da Deolinda, um José Mário Branco e/ou uma banda do exército. Também se pode simplesmente apagar aquilo e colocar lá dentro os Nocturnos de Chopin e/ou o Requiem de Mozart, o álbum tem essa versatilidade, não prende, não amarra, não obriga a ficarmos com o que não queremos.

Há quem acuse os Homens da Luta de falta de qualidade musical. Concordo que esta será talvez a sua canção menor. Como não sou musicólogo não vou avaliar isso. Agora rotulá-los de artistas menores é errado. Pode haver quem não goste das letras, quem não goste da mensagem e até quem não goste do visual, e por todos esses motivos tentem calá-los e rotulá-los de artistas menores, mas a música que fazem é boa música, que não precisa do visual para chamar fans. Depois de um dos mais aliciantes projectos no punk-rock nacional, Jel e o irmão viraram 180º e deram-nos um dos melhores projectos de música portuguesa. Em vez de os aplaudirmos vaiamos. Não faz mal... 

Nas notícias sobre sábado, um jornal espanhol, de seu nome El País, achou que devia rematar a notícia com a presença dos representantes de Portugal na Eurovisão. E nós sabemos como os espanhóis nunca nos dão pontos...


 

Monday, March 14, 2011

Os Homens e a Luta (Parte I)

Tenho estado uns tempos afastados, não por falta de assunto, mas mais por sentir que havia demasiado assunto para tão pouco tempo que disponho. Hoje decidi-me e, como o título deixa antever, vou falar sobre o que toda a gente fala.


O número dos Homens da Luta é talvez um dos mais inteligentes números satíricos já feitos em Portugal. Ao lado dele, o humor refinado dos Gato Fedorento não passa de piadolas atiradas ao ar. Confundir o número com os cantares interventivos do pré e pós 25 de Abril é um elogio e um equívoco.


Um elogio porque liricamente estamos a falar de um dos períodos mais ricos da música portuguesa e os Homens da Luta são, liricamente, herdeiros desse período. Musicalmente foi também uma altura de renovação, com a entrada de sons do folclore continental e ultramarino e os Homens da Luta foram buscar os frutos dessa renovação. Em termos de figurino parece que desde as camisas ao cabelo também são herdeiros dessa época, mas é aí que começa o equívoco.


Enquanto que representando esteticamente o período do PREC, os Homens da Luta chamam-nos a atenção para quem pega num megafone e defende os nossos direitos. Seria importante ver o depois da Luta, algo que eles não sonegam e assumem como parte do seu número. Na famosa intervenção no Seixal, Jel bem passa a mensagem que "Sócrates é bom para a Luta"; na tomada de posse do Governo (em que foram presos por perturbar o funcionamento de um órgão de soberania) vão ao ponto de listar uns quanto políticos de esfera governativa (e aqui não se ficam pelos da actual esfera governativa) que começaram na Luta, em entrevistas o camarada Neto diz várias vezes que espera que não acabe a Luta, porque senão ainda tem "de ir trabalhar".


É compreensível que não hajam muitas forças políticas a quererem colar-se às personagens! A mensagem que transmite não se torna falsa por estar inserida num número humorístico, construído à custa de um imaginário que nos trouxe onde hoje nos encontramos, porque não haja a ilusão camaradas, quem realmente triunfou com o 25 de Abril e o 25 de Novembro foram os mesmos que cantam em Tarrafal que a famosa tortura do sono consistia em ser obrigado a dormir porque se queria direitos...



Wednesday, January 19, 2011

A Azia do Bolo-Rei

Com o aproximar do dia 23, os eleitores ficam cada vez mais esclarecidos sobre quem querem para figura máxima do estado. Seria fácil continuar a frase com um "a que as coisas chegaram", mas vou tentar seguir um caminho diferente.

Certamente que a ironia do "ficam mais esclarecidos" não terá passado despercebida. Quem ouve na Rádio Comercial a "Caderneta de Cromos", lembra-se certamente como Nuno Markl relatou em 3/4 episódios as lembranças que as presidenciais de 1986 lhe traziam. Duvido que quem se der ao trabalho de fazer uma semelhante caderneta em 2034 tenha muito mais para dizer sobre esta campanha do que "Ah, e parece que houve uma espécie de eleição!".

Na verdade a chamada "campanha" serviu menos para trocar ideias do que para arremessar lama, introduzindo a originalidade de, desta vez, termos ouvido o candidato Cavaco Silva. O que, pode ser perigoso! De facto, Cavaco pode orgulhar-se de, enquanto presidente, ter sido um dos poucos (único?) político português a ser eleito e que cumpriu rigorosa e escrupulosamente todas as promessas que fez. Que em abono da verdade foram nenhumas, uma vez que durante a campanha de 2006 Cavaco esteve mais silencioso que um bolo-rei com uma laringite! Ainda no tema Cavaco, acho mal que se levantem dúvidas em relação a um certo aldeamento algarvio. Então uma pessoa não pode morar perto dos amigos? Veja-se o exemplo dos bairros sociais, onde vário indivíduos de idoneidade duvidosa convivem alegremente. Que uns sejam traficantes de droga e os outros de influências são apenas diferenças de objecto!

Para mim, que cresci nos gloriosos anos do Cavaquismo, habituei-me a apreciar as liberdades com que Cavaco nos presenteava. Lembro-me da liberdade da polícia arrear na malta, no bloqueio da ponte; da liberdade de arrear na câmara de televisão, como na Manuel Pereira Roldão e como lembrava o Pedro Abrunhosa há uns meses, de ninguém na comunicação social (poder) dizer mal! Com o tempo cresci e percebi algumas coisas. Percebi, nas aulas de história, que não foram só as asneiradas do pós-25 de Abril que nos mandaram para a lama, mas também (e essencialmente) o desbaratar de fundos europeus. No extremo até se pode dizer que esses fundos vinham para corrigir as asneiras, e acabaram por se tornar uma asneira maior.

A supra referida campanha de 1986 ficou também famosa pelo tamanho dos sapos que foram engolidos e torna-se curioso que um partido surja novamente envolvido nos sapos de 2011. Como já terão adivinhado, não falo do PCP... No entanto desta feita o sapo não é um candidato, mas sim um partido. A saber, o PS é o sapo que Alegre tem de engolir. Quem acompanhou o processo eleitoral em 2005/6 sabe que nessa altura não só Alegre foi uma pedra no sapatinho do PS, como também que a grande força de Alegre era precisamente o aparecer desligado de forças partidárias. Na altura ele concorria contra o que eleitorado vê como a personificação do mal, os partidos. Durante uns tempos foi vê-lo a manter-se contra, inclusivamente na Assembleia da República.

Com o aproximar de 2010 foi vê-lo a acalmar e a remeter-se à figura do lendário Toni, na Conversa da Treta (gritando e esbracejando "'adeslarguem-me' que eu vou-me a ele", quando ninguém o segurava). Em 2011 aí o vemos a engolir o sapo chamado PS. A melhor forma de o calar era apoiá-lo e foi isso que o partido fez e, apesar de aparecer a fogachos, alguém duvida que o apoio é bem mais moral que efectivo? Alegre é um cordeiro sacrificial! Desta não se pode queixar que o partido não esteve lá e o partido ganhou o candidato ideal para perder a votação, sem se comprometer muito, conseguindo de caminho calar uma das vozes mais críticas.

Em jeito de nota final, gostava de dar algum destaque à Grande Entrevista com Francisco Lopes. Lembro-me de por volta de 2004/5 ter visto uma semelhante com Jerónimo de Sousa e de ter gostado. Gostei da postura e gostei do discurso. O mesmo desta vez. Infelizmente com o tempo, Jerónimo mostrou que naquela ideologia existe uma massa em vez de um conjunto de indivíduos e que ninguém desde o século XIX parou para reflectir nas mudanças do mundo. Nesse sentido seria interessante verificar de que forma evoluiu a Igreja (no caso a Católica) e ver como evoluiram as mentalidades para aquela banda. Ou noutro sentido, como evoluíram as mentalidades da população no que diz respeito a representantes de um partido dito comunista. O comportamento da comunicação social face a este partido é de todo lamentável. Cortar a palavra, desviar respostas e todo um rol de comentáriozinhos não me parece que seja bom entrevistar.

Se é certo que não nos tornamos tolerantes por decreto, seria bom que pelo menos quem tem obrigação de ser imparcial fizesse um esforço por o ser.

Quanto ao esclarecimento do voto... Sei que não voto Cavaco, sei que não voto Alegre. Quanto aos outros... Domingo logo se vê!