Thursday, August 15, 2013

As irrevogáveis palavras dos nossos carrascos. 2/3

Se um regime republicano não precisa de ser necessariamente democrático, daí que o comportamento de Papá Aníbal não mereça mais do que repúdio, já as palavras da segunda figura do Estado, pela natureza do órgão a que preside, merecem algo mais. Sei que o Palácio de São Bento não é tratado oficialmente como a casa da Democracia, e que em tempos o partido único se reunia para sessões de conversa, mas havendo um sentimento que neste momento aquele palácio é algo de diferente do clube de debate da união nacional, seria bom que quem preside aos debates que aí decorrem, tivesse mais tento na língua, ou no mínimo que pensasse um bocadinho no que diz e a quem o diz.

A pobre reformada (desde os 42 anos) que preside às reuniões que aí decorrem ficou muito incomodada com a população que se manifestava nas galerias (alguns pela suas reformas e o tempo que tiveram de descontar para as ter), perturbando os trabalhos. Vai daí, à costumeira ordem de evacuar as galerias, cumprida de forma pacífica por manifestantes e autoridades, acrescentou um citação de Simone de Beauvoir ("Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes").

A conversa da madame, que antecede a citação, já não era nada famosa, dando a entender que por se manifestarem em demasia, os cidadãos poderiam perder o direito a aceder às galerias, donde podem ver os seus representantes a representarem-nos (e deixo aqui em aberto a quem se referem os pronomes). Comparar o mesmos cidadãos, que os elegeram "para não ter medo" (palavras da madame), a carrascos, mesmo ignorando que os carrascos de Beauvoir eram nazis, fica um bocado mal, para não dizer que é descabido.

O descabimento ocorre de várias formas. Em primeiro lugar, é descabido porque como se pode ver pela propaganda televisiva estival, o nosso de jure ainda pode ir para a sua praia predilecta sem correr o risco que lhe atirem uma alforreca, uma cuspidela (já o de facto alegadamente não podia dizer o mesmo) ou mesmo um calhau. Aliás, de acordo com a propaganda, até há quem saúde entusiaticamente o de jure. Nenhum dos membros do actual governo tem problemas de maior, e mesmo episódios como o cerco ao Parlamento, de tempos não muito distantes, constituem mais matéria para livros de história e relatos de outras paragens. Cenas como a de Madrid ou Atenas estão longe de ser comparadas com os arrufos de pedras em S. Bento, ou com as grandoladas e assobiadelas. Estranhos carrascos estes...

Por outro lado, a acrescentar ao descabimento, há o ficar mal. Quando se vê a forma como ao longo dos tempos, gente como ela usou e abusou das leis que naquela casa se vota(ra)m (no caso dos reformaos, quantos têm uma reforma de 5000 euros, aos 42 anos de idade, com apenas dez anos de serviço, por exemplo) fica a questão de quem tem explorado quem e quem abusa de quem.

Há no entanto uma interpretação que poucos fizeram. A madame estava no fundo a dirigir-se aos deputados querendo falar para aqueles que eles representam! Penso ser essa a interpretação correcta, porque a irrevogáveis palavras da segunda figura do Estados caíram no esquecimento mais depressa do que um dinossauro autárquico do PSD concorre a uma câmara de um concelho adjacente (com mais uma vez uma lei a protegê-lo)!

Os carrascos de Beauvoir estavam perfeitamente identificados. Sabendo nós da natureza do que se passa na "Casa da Democracia", estaria a madame de S. Bento a falar para as galerias ou para o hemiciclo?

Wednesday, August 14, 2013

As irrevogáveis palavras dos nossos carrascos. 1/3

Ando a marinar este comentário há uns tempos. Inicialmente era para ser um compêndio de frases, do calibre de "se um sem-abrigo aguenta, porque é que os outros não aguentam" (não é bem uma citação de Fernando Ulrich, mas passa a ideia). No final acaba por ser um comentário ao mês de Julho, com poucas referências a palavras e mais a gestos que se tiveram e não tiveram.

Torna-se um exercício de adivinhação saber como Julho de 2013 será relembrado. Em parte porque poucos se lebram já de quem queria ir mais além do que a troika, de quem acha que se um sem-abrigo aguenta não ter nada, todos devem aguentar, quem acha que o nojo da política é ter participado em operações num banco privado que custou já aos contribuintes portugueses perto de 10 000 000 0000 (dez mil milhões) de euros.

É difícil saber o futuro, mas Julho de 2013 ficou indelevelmente marcado por uma série de acontecimentos que não deveriam ser esquecidos. O mais marcante terá sido a pequena guerra pessoal que Paulo Portas e Cavaco Silva, esses amigos de longa data, travaram. Consoante a leitura pessoal de cada um, assim será o vencedor, afinal em política todos ganham. Já o derrotado, e sendo certo que para cada vencedor tem de haver um vencido, também é em duplicado. Quem sai derrotado é a democracia portuguesa e a opinião que os portugueses têm da política (quando se pensa que não pode piorar, há sempre alguém que o consegue... e desta vez nem foram os jotinhas!).

Como catalizador para este sururu foi a demissão do Primeiro-Ministro de facto, Vítor Gaspar, que o fez deixando como lembrança uma bonita carta onde assume o falhanço a toda linha da orientação do Governo e das medidas tomadas. Até aqui apenas verdades de La Palice. Acrescentou ainda que estas são erradas, e esta constatação, vinda de um dos papagaios de serviço da comissão liquidatária do País, deveria ter sido bem mais explorada no mês que se seguiu, senão pela auto-intitulada oposição, pelo menos pela comunicação social. Só que depois das entradas e do prato principal, faltava ainda a sobremesa. No caso da carta, trata-se de insinuar o que só o mais emperdenido (por cegueira ou necessidade) larajinha ainda não percebeu: o primeiro-ministro de jure não passa de um fantoche, com alguém a manobrá-lo e desprovido de qualquer pensamento próprio e capacidades de liderança. Em Portugal isto passa usualmente por virtudes muito apreciadas, daí ficar a dúvida se a insinuação foi um insulto ou um elogio.

O que se passou no entanto foi que o de jure decidiu dar um ar de sua graça. Face ao reconhecimento, pelo génio que a traduzia, de que a sua linha orientadora havia falhado e as políticas seguidas estavam erradas, decidiu-se ele dar posse a quem pudesse garantir a sua continuaç
Ando a marinar este comentário há uns tempos. Inicialmente era para ser um compêndio de frases, do calibre de "se um sem-abrigo aguenta, porque é que os outros não aguentam" (não é bem uma citação de Fernando Ulrich, mas passa a ideia). No final acaba por ser um comentário ao mês de Julho, com poucas referências a palavras e mais a gestos que se tiveram e não tiveram.

Torna-se um exercício de adivinhação saber como Julho de 2013 será relembrado. Em parte porque poucos se lebram já de quem queria ir mais além do que a troika, de quem acha que se um sem-abrigo aguenta não ter nada, todos devem aguentar, quem acha que o nojo da política é ter participado em operações num banco privado que custou já aos contribuintes portugueses perto de 10 000 000 0000 (dez mil milhões) de euros.

É difícil saber o futuro, mas Julho de 2013 ficou indelevelmente marcado por uma série de acontecimentos que não deveriam ser esquecidos. O mais marcante terá sido a pequena guerra pessoal que Paulo Portas e Cavaco Silva, esses amigos de longa data, travaram. Consoante a leitura pessoal de cada um, assim será o vencedor, afinal em política todos ganham. Já o derrotado, e sendo certo que para vencedor tem de haver um vencido, também é em duplicado. Quem sai derrotado é a democracia portuguesa e a opinião que os portugueses têm da política (quanto se pensa que não pode piorar, há sempre alguém que o consegue... e desta vez nem foram os jotinhas!).

Como catalizador para este sururu foi a demissão do Primeiro-Ministro de facto, Vítor Gaspar, que o fez deixando como lembrança uma bonita carta onde assume o falhanço a toda linha da orientação do Governo e das medidas tomadas. Até aqui apenas verdades de La Palice. Acrescentou ainda que estas são erradas, e esta constatação, vinda de um dos papagaios de serviço da comissão liquidatária do País, deveria ter sido bem mais explorada no mês que se seguiu, senão pela auto-intitulada oposição, pelo menos pela comunicação social. Só que depois das entradas e do prato principal, faltava ainda a sobremesa. No caso da carta, trata-se de insinuar o que só o mais emperdenido (por cegueira ou necessidade) larajinha ainda não percebeu: o primeiro-ministro de jure não passa de um fantoche, com alguém a manobrá-lo e desprovido de qualquer pensamento próprio e capacidades de liderança. Em Portugal isto passa usualmente por virtudes muito apreciadas, daí ficar a dúvida se a insinuação foi um insulto ou um elogio.

O que se passou no entanto foi que o de jure decidiu dar um ar de sua graça. Face ao reconhecimento, pelo génio que a traduzia, de que a sua linha orientadora havia falhado e as políticas seguidas estavam erradas, decidiu-se em dar posse, para substituir o de facto, a alguém que pudesse continuar as políticas. Irritado com o ostracismo a que fora votado, o líder da oposição-no-governo decidiu demitir-se do seu cargo de ministro. Neste ponto começa aquilo que, dependo de se ser pobrezinho ou apenas brincar aos pobrezinhos, pode ser visto como uma farsa ou uma comédia. O de jure, provavelmente a mando do Papá Aníbal recusa-se a aceitar a irrevogável demissão do seu ignorado parceiro de coligação.

Aqui introduz-se a figura de Papá Aníbal, reconhecido criador de coelhos, um homem que, ao fim de quarenta anos de democracia apenas esteve em cargos de responsabilidade durante vinte, e que se assume como não político. (O falhanço das políticas de educação reflecte-se mais no facto de haver uma larga maioria que ainda acredita nesta cantiga, do que em resultados de exames.) Só que para não-político tem muito a ensinar de como fazer política aos coelhinhos do seu laranjal, mesmo no seu estado de pré-demência (ou amnésia profunda, conforme se queiram interpretar as suas lembranças sobre agricultura e mar). Por exemplo, no mesmo dia em que dá posse a um novo ministro, assiste à demissão de outro e age como se fosse tudo normal. Para ele até era, na volta, face à história de amizade que une Papá Aníbal e o neo-demissionário.


Aqui impõem-se um momento de reflexão, para que se perceba onde não está a democracia. Aquando das últimas eleições, os portugueses foram chamados a votar num programa eleitoral (se o fizeram ou não pertence ao reino do sucesso das políticas de educação). Dessas eleições resultaram um executivo em coligação e um programa de governo elaborado pelo primeiro. Um dos elementos desse executivo demitiu-se, meses depois de ter elaborado esse pedido (deve ter trabalhado à base de chicote no tempo intermédio), reconhecendo que as medidas tomadas e o rumo seguido se encontravam errados. Ou seja, face aos resultados práticos na vida dos portugueses, face ao descontentamento generalizado na sociedade e também na coligação governativa, o que o Papá Aníbal achou foi que não valia a pena perguntar aos portugueses se queriam continuar neste barco. A responsabilidade e a bondade de Papá Aníbal para com quem o rodeia, só precisa de ser avaliada quando se olha para a malta da SLN e as dificuldades por que passam.

Entretanto o de jure propôs uma reformulação total do barco. Vendo o que se escondia nessa irrevogável decisão, Papá Aníbal disse que não a aceitava, apelando a um sentido de responsabilidade e de forma alguma por qualquer sentimento vindicativo, e que se queriam mudar dessa forma que se entendessem com o terceiro partido que assinara o memorando, o partido do governo-na-oposição.

Se estava engraçadote, interessante ficou. O líder do partido da oposição-no-governo, caso as conversas corressem bem, ficaria enfraquecido de uma forma que poderia ser letal para o seu partido. Por outro lado o líder do partido do governo-na-oposição tem um perfil em todo semelhante ao do de jure, com igual, chamemos-lhe, espinha dorsal. Essa postura de espinha dorsal revela-se por aceitar as negociações sobre uma premissa inválida, e a quebra das mesmas assim que os seus papás acordaram da sesta em que se encontram, para lhe puxar as orelhas.

Para quem estranhou a questão da validade da premissa, será interessante que compare os últimos anos de políticas com o que se encontrava no memorando original. Quem ainda achar depois disso que o partido do governo-na-oposição ainda se encontra amarrado ao que quer que seja, so pode, lá está, demonstrar mais inequivocamente do que qualquer exame do secundário, o falhanço do ensino em Portugal.

Ora, regressado das Selvagens para junto dos selvagens, Papá Aníbal, que tinha a certeza de estar tudo a correr bem, acaba por dar posse ao governo que havia, uma semana antes, considerado uma má solução. Depois da traulitada dada na Democracia, nada como uma machadada de incoerência para sublinhar a sua opinião sobre esse aborrecimento que são as eleições. Não que devêssemos estar surpreendidos do homem que está perfeitamente "identificado e integrado no regime", aquele que vigorava na década de 50/60. Não sejamos no entanto muito duros com esse pensionista. Com os seus míseros 20 ordenados mínimos por mês o coitado deve perder noites e noites a saber como vai pagar a renda, o passe, as contas, os livros dos miúdos e todas as outras despesas com que os remediados como ele lutam. Ou isso, ou está-se simplesmente a cagar!

Sunday, June 16, 2013

Citações - O Outono do Patriarca

"(...)ao mesmo tempo que ouvia, meio adormecido na rede, as razões sempre iguais do embaixador Streimberg, que lhe tinha oferecido uma corneta acústica igual à do cão da voz do dono com um dispositivo eléctrico de amplificação, para que ele pudesse ouvir uma vez mais a pretensão insistente de levar as nossas águas territoriais à conta das amortizações da dívida externa e ele repetia o mesmo de sempre que nem por sombras, meu caro Stevenson, tudo menos o mar, desligava o audiofone eléctrico para não continuar a ouvir aquele vozeirão de criatura metálica que parecia voltar o disco para lhe explicar outra vez o que tanto me tinham explicado os meus próprios peritos sem rodeios de dicionário, que estamos completamente de tanga, meu general, esgotámos os nossos últimos recursos, sangrados pela necessidade secular de aceitar empréstimos para pagar as amortizações da dívida externa desde as guerras da independência e depois outros empréstimos para pagar os juros das amortizações atrasadas, sempre em troca de qualquer coisa, meu general primeiro o monopólio do cauchu e do cacau para os Holandeses, depois a concessão do caminho-de-ferro dos páramos e da navegação fluvial para os Alemães, e tudo para os gringos pelos acordos secretos que ele não conheceu senão depois do derrube de estrépito e da morte pública de José Ignazio Saenz de la Barra (...), não nos restava nada, senhor general, mas ele tinha ouvido dizer o mesmo a todos os seus ministros do Tesouro desde os tempos difíceis em que declarara a moratória dos compromissos contraídos com os banqueiros de Hamburgo, a esquadra alemã tinha bloqueado o porto, um couraçado inglês disparou um tiro de canhão de aviso que abriu uma brecha na torre da catedral, mas ele gritou que caguei para o rei de Londres, antes mortos do que vendidos, gritou, morra o Kaiser, salvo no instante final pelos bons ofícios do seu cúmplice de dominó, o embaixador Charles W. Traxler, cujo Governo se constituiu garante dos compromissos europeus em troca de um direito de exploração vitalícia do nosso subsolo, e desde essa altura estamos como estamos a dever as próprias cuecas que temos vestidas, meu general, mas ele acompanhava até às escadas o eterno embaixador das cinco e despedia-se dele com uma palmadinha no ombro, nem por sombras meu caro Baxter, antes morto do que sem mar (...)"
Gabriel García Márquez, in O Outono do Patriarca

Wednesday, May 29, 2013

Interregno para Benfiquices

A equipa vencedora do campeonato nacional e a segunda classificada têm algo em comum. Ambos os seus treinadores vêem os seus contratos acabar e, até onde se sabe, nem renovaram com os actuais ocupantes do cargo, nem anunciaram quem os substitui. A julgar pela agitação na imprensa (e aqui apenas tenho acesso a sites), apenas um desses clubes parece padecer desse mal. Como me dizia alguém recentemente, com uma imprensa amansada e bem treinada, tudo fica mais fácil.

Quando iniciei este espaço de comentário tinha-me prometido a mim mesmo tentar não falar de futebol ao nível de clubes. É daqueles exercícios que se revestem de uma certa futilidade, em particular quando se fala de Portugal e especialmente quando nos encontramos entalados entre a combatividade dos ingleses e o rigor dos alemães. Só que o final de época decepcionante do Benfica, clube pelo qual nutro algum gosto, levou-me a ter de dizer umas palavras sobre o assunto. Nada de importante no entanto, porque a julgar pelos autocarros de comentários sobre o assunto que se multiplicaram desde domingo, não é preciso nenhuma habilitação superior a ter-se uma boca, para que a nossa opinião seja motivo de primeiras páginas. Não aspiro a tanto, mas como tenho uma boca, porque não dizer umas palavras?

Acompanhar o campeonato principal de futebol na década de 90 e ali o primeiro par e anos do novo século, foi assistir à maior mentira desportiva, se não da história do desporto, pelo menos da sua manifestação local. Claro que para a história fica quem ganhou, e quem ganhou passou anos a receber indevidamente dinheirinho da UEFA e a alimentar um regionalismo bacoco e parolo. É verdade, nem no capítulo de regionalismos conseguimos ser originais ou levar a coisa a sério (a primeira ainda mal, a segunda ainda bem, para que não restem dúvidas). A juntar a isto, uma espécie de insanidade tomava conta do único clube que dava ares de ainda tentar segurar as calças. Confesso que com os autocarros de jogadores que entravam e saíam da Fornalha da Luz (como carinhosamente era apelidada A Catedral nessa década, pelo efeito que tinha em jogadores e treinadores) me é difícil lembrar de todos os nomes, mas quando os doentes da bola com que me dou se juntam, ainda conseguimos desfilar nomes par afazer duas equipas. Imagino que o número total deve dar para fazer um campeonato à parte...

Em 2006 ficou demonstrado o quão brandos nós somos. Com o caso do Calciocaos vimos clubes italianos históricos relegados para campeonatos inferiores, multas, começo de provas com pontos negativos, um fartote. Quando o Apito Dourado rebentou, com muito menos provas do que no caso italiano, houve um que se lixou, apesar de muitos serem mencionados, e um em particular vir à baila repetidamente pela figura do seu monarca.

Entre culpas próprias e alheias, dificilmente quem cresceu neste ambiente poderia ficar furioso com o perder, em duas semanas é certo, três das quatro provas em que se encontrava inscrito (isto claro, na perspectiva de que a Europa é "uma" prova). No entanto algo mudou nos tempos recentes. Não foram as arbitragens a melhorar, como o campeonato 2011/2012 e de certa forma este 2012/2013 mostraram, só que a premissa de abertura sobre a imprensa arruma logo todo o debate que possa haver sobre o relevo dado a isso. O principal factor que mudou foi a forma como a equipa aborda o jogo. Depois de vinte anos a ser empurrados para baixo o normal seria entrar em campo derrotados à partida. Era assim na época dos autocarros de jogadores e de treinadores chamuscados (um deles recém campeão europeu), equipas moles que à primeira adversidade desmoronavam. 

Por muito que me custe, por não gostar particularmente da pessoa e achar que apresenta algum espaço para melhorar o planeamento das equipas, a principal mudança foi o treinador. Não me lembro de ver, nem no Benfica de Mourinho, ou do primeiro Camacho, um Benfica que jogasse como este joga. Que num número impressionante de jogos se desse ao luxo de dar um de avanço para depois virar o jogo, que a cada penálti não assinalado, a cada expulsão indevida, a cada entrada assassina sofrida respondesse com futebol. Não deixa de ser curioso que o Benfica tenha perdido tudo, quando se preocupou em defender o que tinha em vez de procurar mais. Confesso também que, pese a falta de resultados palpáveis, este Benfica é o que mais olha nos olhos o seu principal rival senão note-se como no jogo da Luz recuperou por duas vezes de uma desvantagem para assumir o controlo do jogo, e no jogo do Dragão, instantes antes do momento do Kelvin, os adeptos mais entusiasmados eram os da equipa visitante. Depois veja-se aquilo que partir desta época, apesar de ser bem patente noutros anos e mesmo contra a outra equipa com vontade de ganhar titulos, eu passarei a chamar de Efeito Académica (ou Pedro Emanuel, ainda não decidi bem). No jogo da Luz defendeu com onze jogadores dentro da área, não esboçando sequer vontade de marcar um golo, no jogo em casa com o Porto, algumas semanas depois, jogou bem aberto, para que os jogadores do Porto não tivessem problemas em arranjar espaço para os brindarem com uns quantos golos. Também para sublinhar as dificuldades está o Efeito dos Parzinhos, ou de como um par de jogadores do Estoril, e um par de jogadores do Guimarães, no final da época mudaram de clube...

Sejamos francos, para poder chegar ao fim da época a lutar lado a lado pelo campeonato, o Benfica teve de jogar o triplo da concorrência, e o triplo porque teve de enfrentar adversários que lhe colocavam mais dificuldades, uma época mais longa na Europa, um época mais longa na Taça, e para a Taça da Liga apenas fez menos um jogo (que na altura em que ocorreu parece ter ganho um prestígio muito maior do que teve nos anos anteriores). Com tudo isto, só na final da Taça de Portugal é que os onze bonecos em campo não mereceram envergar a camisola do clube.

Tal como Portugal dificilmente teria chegado à final do Euro se não fosse o Scolari, dificilmente o Benfica teria tipo oportunidade de chorar estas três provas se não fosse Jorge Jesus. Posso, como disse acima, não gostar dele, mas a verdade é que ele conseguiu colocar em campo um equipa que joga um futebol que nos faz esquecer os cabazes de fruta e nos faz acreditar que conseguimos vencer apesar do adormecimento que o café com leite provoca. Foi uma época frustrada, sim, a primeira com Jesus ao leme com zero títulos, só que eu gostava de ver se a equipa e o treinador perceberam que quando o dobro não chega, tem de se jogar o triplo, se perceberam que os jogos não acabam enquanto o árbitro não disser e que sem golos, muitos golos, não se ganham jogos. Posso não gostar de Jesus, mas quero ver se aprendeu alguma coisa este ano.

PS - Valendo o que vale, caso Jesus se vá juntar ao Papa, gostava de o ver substituído por alguém do seguinte lote: Paulo Fonseca (Paços), Mitchell van der Gaag (Belenenses), Rui Vitória (Vitória) ou Pedro Martins (Marítimo).

PPS - Costumo dizer que a grandeza de um clube mede-se pelos seus adversários. Quando os vencedores se preocupam nos seus festejos em nos insultar, ou há (pseudo-)rivais mais emocionados pelas nossas derrotas do que pelas vitórias do clube deles, estamos conversados quanto à grandeza!

Thursday, May 23, 2013

Citações - Martim Neves, Raquel Varela e o pronto-a-vestir da luta de classes

Tomei conhecimento do nome de Martim Neves através das inúmeras partilhas nas redes sociais do "jovem de 16 anos que cala doutorada". O coro de vozes que se levanta contra a doutorada em causa é o mesmo que eleva o jovem à categoria de herói nacional. Como vivemos tempos em que ter uma carreira académica, ou a ela aspirar, parece ser um crime de lesa pátria, procuro dar o menos tempo de antena possível a quem a tal se dedica, quer por ideologia, quer por inveja.
No caso de Martim Neves e Raquel Varela, e por achar que estamos perante um daqueles momentos em que têm os dois razão, pecando o comentário da Raquel por estar deslocado, acho que merecem destaque as palavras do Daniel Oliveira no seu blog do Expresso, e que transcrevo abaixo, mantendo os destacados originais.

Martim Neves, Raquel Varela e o pronto-a-vestir da luta de classes

 Martim Neves é um miúdo de 16 anos. Aos 15 anos, desenhava umas roupas e resolveu fazer-se à vida. Pediu às "raparigas mais giras" da escola para as usarem e assim promover o seu trabalho. Depois a coisa correu bem e acabou por pedir a uma fábrica que o fizesse. Já exporta o que faz. Até aqui, o Martim só merecia aplauso. Até aqui e depois disto. Porque a única coisa que vi no "Prós & Contras" de segunda-feira foi um miúdo empenhado, com genica, a querer viver da sua criatividade e do seu trabalho. Não vi um chico esperto, um arrivista, alguém que espezinha os outros para subir na vida. Vi alguém que quer fazer o que gosta e faz por isso. Nada sei sobre ele. Ninguém ali sabia. Logo, o que interessa é o que se viu: um miúdo articulado, despachado, esperto e empenhado.
A historiadora Raquel Varela (que, para que fique a declaração de interesses, conheço há uns bons anos e de quem, apesar de muitas e antigas divergências políticas, gosto muito pessoalmente) achou que aquele era o momento ideal para explicar os fundamentos da exploração. Perguntou se ele sabia quanto recebiam os trabalhadores chineses que lhe faziam a roupa. Azar: a roupa era feita numa fábrica portuguesa. Depois perguntou se ele sabia quanto ganhavam os trabalhadores que as faziam, pois nas fábricas portuguesas recebe-se o salário mínimo, que, verdade indesmentível, não dá para viver com dignidade. Ele respondeu: ao menos os trabalhadores que ganham o salário mínimo não estão no desemprego. A coisa espalhou-se pelas redes sociais e o rapaz tornou-se em assunto de debate.
Com esta frase, Martim Neves, sem o saber (ou sabendo, é indiferente), atirou por terra tudo que Raquel Varela tivesse para dizer. Porque a historiadora não tinha razão? Porque o salário mínimo dá para viver? Nada disso. Raquel Varela tinha toda a razão, mas a isso já vou. Mas porque o facto de ter razão não invalida que o que Martim disse seja igualmente verdade. É mesmo melhor pouco que nada. Não é preciso fazer grande teoria sobre o assunto, porque se trata de puro bom-senso. Ter nada não é o mesmo que ter pouco. Por isso mesmo se defende a existência de um salário mínimo e todas as pessoas normais se batem pelo subsídio de desemprego. Se fosse o mesmo, nem uma nem outra coisa fariam qualquer sentido. Se não fosse melhor receber o salário mínimo do que estar desempregado a esquerda não tinha passado décadas a bater-se pelo salário mínimo. Quer é que ele seja maior.
O problema de Raquel Varela foi ter escolhido a pessoa errada para ilustrar o seu ponto de vista. Foi ter procurado num miúdo de 16 anos, com iniciativa, que não é dono de fábrica nenhuma e que em nenhum momento defendeu que o salário mínimo era decente, mais um exemplo da luta de classes. Foi, como muitas vezes acontece à esquerda (e à direita), usar a ideologia, não como o enquadramento para a sua ação política, mas como um pronto-a-vestir. Simplificou de tal forma as coisas que recebeu uma resposta igualmente simples mas muito mais eficaz.
Sim, o pouco ser melhor que nada não justifica o pouco. Porque de pouco em pouco se chega ao nada. Porque, já agora, pelo menos em Portugal, a existência do desemprego ajuda aos salários baixos. E o argumento de que mais vale pouco que nada faz o resto. Não porque seja falso. Funciona exatamente por ser verdadeiro. Se fosse falso, ninguém aceitaria pouco e preferia ficar com nada.
Cabe à política, através, por exemplo, de um salário mínimo decente, de um subsídio de desemprego que não obrigue as pessoas a aceitar trabalho quase escravo, de um Estado Social que garanta a dignidade, de uma política que promova o trabalho qualificado, impedir que esta verdade se transforme numa chantagem. Nada disto é posto em causa pelas roupas do Martim. Nem pelo facto de ter entregue as suas roupas a uma fábrica e com isso ter ajudado, à sua dimensão, a economia. Aquela que produz bens que nós compramos. Coisa que Raquel Varela quase tratou como uma forma de cumplicidade de um adolescente com a política de salários baixos. Nem sequer a sua frase, que corresponde a uma evidência, é um problema. O problema, e disso o Martim não tem qualquer culpa, é a política que usa esta verdade para aniquilar a dignidade das pessoas. O mundo estar cheio de verdades cruéis não nos impede de, como comunidade, impor outras verdades que as combatam.
O problema de alguma esquerda, que desvaloriza o papel social do Estado e o reformismo que o garantiu, é que depois se vê obrigada a encontrar em cada demonstração de ambição pessoal mais um exemplo da luta de classes, única explicação para toda a realidade. Porque não há lugar para meios-termos, não há diferença entre o Martim e o dono da cadeia de supermercados que tem lucros gigantescos enquanto mantém os seus trabalhadores abaixo do limiar da pobreza.
O problema naquele diálogo não foi o Martim. Foi a Raquel Varela, que confundiu a consciência política e a solidariedade social, que a todos é exigida, com a falta de ambição pessoal. Que confundiu o combate ao ultraliberalismo com a censura à iniciativa privada. Que tomou um miúdo com genica por um capitalista sem escrúpulos. Que tentou aplicar o seu prefabricado ideológico na primeira coisa que lhe apareceu à frente. Que confundiu o Manuel Germano com Género Humano. Que, como acontece tantas vezes ao excesso de voluntarismo ideológico (de esquerda ou de direita, de Raquel Varela e dos que viram no Martim um exemplo para saída da crise), afastou a política da vida concreta, fazendo da vida concreta uma mera ilustração da política.

Friday, May 3, 2013

Isto até está a correr tudo tão bem...


Passos Coelho afirmou hoje que ""Falhar agora seria desperdiçar os sacrifícios (...) estamos na recta final desta estratégia". A minha primeira reacção foi de sarcasticamente proferir a frase no título. Depois lembrei-me do que disse no comentário anterior. Nunca esperei foi ver a situação oficializada.

Esperar que a Presidência da República intervenha a favor dos cidadãos é como esperar que D. Sebastião apareça numa manhã de nevoeiro. Afinal isso iria contra a sua afirmação de que em 1967 se encontrava "Integrado no actual regime político", o homem de quem a PIDE "moral e politicamente nada [se] conseguiu apurar em seu desabono"

Thursday, April 25, 2013

O insucesso de Abril, o sucesso de Maio.

Hoje é 25 de Abril e a chamada casa da (chamada?) Democracia fechou-se ao demos. Claro que isso depende muito de a quem se pergunta. Se perguntarem a quem manda por lá, a resposta é que falta espaço porque está tudo cheio com alunos do básico e secundário. De louvar este apelo pela juventude e este interesse pela educação dos jovens naquilo que se quer como valores de cidadania. Claramente esta mudança de comportamento não pode estar de forma alguma associada a uma certa canção que normalmente se relembra nesta altura e que Pedro Passos Coelho catalogou como a melhor forma de se ser interrompido.
O único factor que entristece é que parece que no que se refere a programas educativos, o Governo revela uma certa falta de coordenação com a Presidente da Assembleia da República. Que progressivamente se esteja a reduzir o 25 de Abril a cravos, à Grândola e à Democracia é redutor. O cerne é mesmo o itálico.
Recentemente entabulei uma conversa com, porque hoje é 25 de Abril, uns camaradas-pá sobre as últimas legislativas. Apesar de todos votarem, foi com espanto que me olharam quando lhes lembrei que o meu boletim de voto tinha perto de quatorze escolhas. É verdade, eram mais do dobro daqueles que têm assento no edifício que hoje fecha ao povo para se proceder à endoutrinação dos jovens, no entanto a resposta invariaável é que os outros são demasiado pequenos. Ao contrário dos clubes de futebol, em que o Almada ou o Benfica tanto jogam bem como mal independentemente de eu ir ou não ao estádio, em democracia a dimensão de um partido depende mesmo de eu ir lá ou não.
Acho que hoje é importante falar nisso face ao retrocesso social que sofremos. Vozes alinhadas com o Governo dizem-nos que as coisas não correm como esperado mas não se pode comparar com a crise da década de 20 (do século XX). Vozes desalinhadas do Governo asseguram-nos que o que se passa é um falhanço a toda a linha de uma política. Ambos mentem.
Nem a coisas não correm como esperados, nem são um falhanço. Nunca foi um objectivo de quem nos impôs estas medidas dar-nos algo vagamente semelhante a autonomia, nem quem as aplicou andou por um segundo que fosse iludido quanto ao que realmente ia acontecer. O que tem sucedido, e o mais recente chumbo do Tribunal Constitucional vem confirmar, é um sucesso a toda a linha das medidas de austeridade. Desde o aumento do desemprego, aos cortes nos apoios do Estado a quem se encontra, já não em risco, mas abaixo das linhas de risco, a ausência de uma reforma da Educação que não seja mais do rearranjar a ordem das cartas, tudo o que é feito é feito com o objectivo único de nos fazer retornar à noite que antece a madrugada esperada, a véspera do dia inteiro e limpo, o retorno ao come-e-cala que quem-fala-não-come.
Tudo isto seria apenas triste, não fora esse regresso um pedido que se ouve nas ruas, que nos deu um grande português (ou um grandessíssimo), e que nos faz ouvir alguém soltar regularmente a expressão sobre outros tempos. Não foi a mentira que deu à actual maioria a sua maioria. Já antes de eleito, o actual primeiro-ministro havia dito e prometido tudo e o seu contrário. Foi uma genuína saudade do antigamente que não era assim.
Encontramo-nos à beira de celebrar quarenta anos da revolução em que o povo saiu à rua e obrigou os militares a instaurarem um regime democrático. Esse povo falhou-se a si mesmo. Fomos nós, cidadãos, quem falhou Abril e o que ele prometera, ao nos desligarmos do que com ele conquistámos e permitirmos que meninos imberbes, saídos do berçário da vida, passassem por autoridades de algo que nunca fizeram e nos impusessem a sua lei. Fomos nós que esquecemos e continuámos a tolerar que quem ao longo de um século explorou e abusou, pudesse regressar para continuar a explorar e abusar e ainda nos dizer que aguentamos o correntes abusos e muito mais. Fomos nós que falhámos o 25 de Abril e demos o triunfo póstumo ao 28 de Maio.

PS - Acho delicioso que Assunção Esteves profira a frase "as pessoas não se podem manifestar" e tenha a chamada cara podre para se manter no cargo que ocupa. Claro que isso sou eu!