Monday, November 25, 2013

As Listas de Alhos com Bugalhos

Todos os anos há um momento em que os jornais ficam em pulgas para poderem publicar as listas com os resultados das escolas nos exames nacionais. Cada um publicará a sua, conforme a sua linha editorial. Para os efeitos do que se segue, vou seguir a do jornal Público referente ao ensino secundário, lista que de resto acho muito bem arranjadinha, com possibilidade de ordenar por vários campos. Claro que nisto de listas, cada jornal faz a sua com os critérios que quer. Digo isto por não ter encontrado nenhuma definição dos crtitérios ou qualquer informação quanto à fonte dos dados.

No entanto há algo em que vou divergir da imprensa. Vou-me recusar a tratar aquela lista por ranking. Um ranking implica que haja uma relação entre as entradas da lista. Conforme elas têm sido divulgadas, estas listas com escolas e resultados querem estabelecer relações que não se podem estabelecer, caso se tenha alguma honestidade intelectual.

Serve a lista do Público para demonstrar isso mesmo. A lista referida tem duas colunas muito interessantes de analisar, são elas a coluna "Valor Esperado" e a coluna "Contexto" e correspondem à "média esperada de acordo com o contexto socioeconómico da escola" e ao "contexto socioeconómico a que a escola pertence respectivamente". Não se pense no entanto que o interesse destas colunas se fica pelo título. A quantidade, e a qualidade, do número de linhas que ficam em branco para estes indicadores diz-nos imediatamente algo. A falta de informação relativa à forma como estes valores foram obtidos e a ausência das fontes para esse cálculo, também.

Uma vistoria na diagonal diz-nos imediatamente que nenhuma escola privada tem valores para estas colunas. Uma análise menos superficial diz-nos que uma escola privada dependente do Estado também não. Neste ponto chego à conclusão que os dados para preencherem estas colunas não podem ser de fonte oficial, senão o Ministério teria em sua posse os dados que permitissem preencher estas colunas. Ou não? Quanto às escolas públicas, cerca de 30 não apresentam dados e salvo erro estas são oriundas das regiões autónomas.

Estas colunas são por si o motivo pelo qual não se pode chamar honestamente a estas listas de escolas um verdadeiro ranking, porque pretendem comparar o incomparável. É como fazer uma lista de compras, colocar o preço das coisas e no fim dizer "gosto mais de pêras". Qual a relação? Pois!

Ora, para se aferir alguma qualidade no ensino e poder ir em busca de boas práticas, não basta olhar à média, especialmente num mundo em que cada vez menos o grau académico em si garante o que quer que seja. Olhemos pois para as médias efectivas e para as médias esperadas. Obviamente apenas se pode falar de escolas públicas. Há por aí escolas (plural!) que conseguem neste campo uma disparidade a rondar os +3 valores. Por outro lado há aquelas que obtêm o simétrico -3. Estas diferenças já nos começam a dar indicações sobre a qualidade do ensino praticado nestas escolas. Estas diferenças se calhar também servem para se perceber porque as escolas que não são de todos (vulgo, as privadas) não apresentam dados nas colunas em questão.

Desde há alguns tempos que a única defesa da escola-que-é-para-todos é que não tem os mesmos "ovos", não está no mesmo contexto e não tem a liberdade que as escola-só-para-alguns tem. Nomeadamente não pode escolher os seus alunos, ao contrário dos colégios que se dão ao luxo de convidar alunos mais problemáticos a mudarem-se para a escola da sua residência, não podem ir buscar os melhores onde melhor lhes convém e a sua organização, desde turmas a número de alunos por turma, é ditada por uma besta sagrada, com umas luzes (na melhor das hipóteses) do que é tentar ensinar um grupo de crianças e adolescentes. Dessa forma, estas listas não passam de listas, que tanto podem ser ordenadas por ordem alfabética, como pela ordem das médias, porque as conclusões que se podem retirar são, rigorosamente, as mesmas. Exepto para as escolas-que-são-para-todos.

Aí sim, há algo que se pode e deve estudar. A capacidade de superar espectativas e de lutar contra tudo o que o que tem sido feito recentemente com vista a destruir o ensino-de-todos (funções que Crato tem desempenhado como nenhum outro desde Manuela Ferreira Leite ou Couto dos Santos) tem de ser valorizada. E arrisco dizer que, tentando o impossível, com os dados que disponho, há algo do que é feito na Escola Secundária Emídeo Navarro (concelho de Almada) que confere mais valor ao seu 10,41 (+0,80) do que o 10,86 (+/- ??) do Externato Frei Luís de Sousa, isto para falar de escola a menos de um quilómetro uma da outra.

Poderia dar mais exemplos. Poderia até ver como estes exemplos se encontram no ensino básico. Deixo-o para quem tiver interesse nisso, e daí ter dado a ligação no início do texto. Pensei em terminar com um desafio a que se veja o que fazem as escolas públicas com diferenças de +2 ou mais e que isso sirva de reflexão para que que têm -2 ou menos. Se não o faço é porque vejo um Ministério da Educação mais preocupado em destruir-se a si mesmo do que em melhorar aquilo que faz. Gostava de chamar aos arquitectos deste "educocídio" incompetentes, mas a reportagem da TVI "Verdade Inconveniente" mostra que isso seria desculpar aquilo que não passa de uma atitude premeditada. Os génios que nos vendem isto não são incapazes ou incompetentes. São pessoas na plena posse das suas capacidades, e como tal o que fazem é por maldade.

Wednesday, November 20, 2013

Refrigeração Nórdica

Após a vitória da selecção de futebol de 11, em Estocolmo, frente à congénere local, Ronaldo foi elevado ao Olimpo dos heróis, e uma marca de refrigerante desceu aos Infernos.

Entre os muitos mimos que foram dirigidos à referida marca esteve o de xenófoba. Confesso que fiquei abismado com o que nestes tempos realmente preocupa as pessoas e a leviandade com que adjectivos são atirados a torto e a direito.

Assim que acabou o jogo as páginas da internet com notícias mudaram logo, e o meu facebook sofreu mais actualizações do que às vezes numa semana. No entanto não encontro com quem discutir os programas do secundário, não vejo indignação pela venda de um empresa de todos nós que pelos vistos dá lucro (os CTT), não vejo indignação por um Orçamento aprovado em notas de rodapé, nada. Dependo em grande parte do que me chega pela net, por estar longe. Podia ser mais um que partiu e simplesmente não quer saber, mas procuro e gostava de debater estes temas.

Infelizmente resta-me o Ronaldo ser o maior do mundo e arredores, e as injúrias que lhe são dirigidas. Pouco importa que o Jorge Fonseca tenha sido recentemente campeão europeu de judo, ou tantos outros heróis que ficam por cantar. Pouco importa que o sistema de ensino esteja a ser demolido. Pouco importa que se venda uma empresa que podia amenizar o assalto que fazem aos bolsos de todos. Enquanto for assim sinto que merecemos tudo o que nos fazem e muito mais, pobres coitados entretidos entre a falta de pão e o excesso de circo.

Saturday, November 9, 2013

Pseudo-Escritoras, Ronaldo e os cãezinhos.

A não questão Margarida Rebelo Pinto consegue surpreender-me na proporção inversa à qualidade da escrita da visada. Não percebo, genuinamente não percebo, a indignação sobre o que ela disse. Fosse ela uma autora do calibre de uma Sophia, uma Natália, uma Alice Vieira, aí sim haveria espaço para se discutir o que queria dizer, poderia até haver espaço à indignação, mas não, ela não tem a qualidade das autoras que referi, não tem a capacidade de intervenção das mesmas, não domina as palavras como elas, não merece sequer que eu a compare com essas monstras da literatura. O que se passou foi um não caso!

Ou então é apenas a rede social que eu tenho. Se me sinto forçado a contribuir para a campanha de publicidade gratuita ao mais recente desperdício de papel que a supra citada conseguiu pôr à venda, é apenas porque a indignação na minha rede social está de tal forma elevada que me levou a indignar com a indignação. A coisa está no ponto de um humorista ser considerado herói nacional por ter mandado a referida à merda! No entanto, vi muito pouca, para não dizer nenhuma, indignação quando o assunto foi uma reportagem da TVI sobre o que este governo anda a desfazer no campo da educação. Ou ainda menos quando saíu uma notícia a relatar que, por despacho governamental, as empresas de transportes teriam de acabar com os descontos para idosos e crianças. E a lista podia continuar! O que importa nisto tudo é indignarmo-nos porque a rainha das cronistas do boçal e do banal teve um comentário boçal e banal. O único motivo de indinação na questão Rebelo Pinto é se ela não pagou à RTP para poder fazer aquele número viral para promover as vendas do seu novo genocídio arbóreo. Se pagou, então nem espaço à indignação há, se não pagou, espero ver em breve escritores à séria no mesmo espaço...

Relativamente às cortinas de fumo, alguém percebeu porque o Orçamento de Estado 2014, que perpetua as medidas de sempre, não foi enviado para o Tribunal Constitucional? Ou será que estava tudo demasiado ocupado a indignar-se com a opinião do Blatter sobre o Ronaldo, ou com a nova lei dos animais de estimação? Toda a gente com um mínimo de dois neurónios funcionais percebeu, quando a lei transpirou para a imprensa, que não passava de uma cortina de fumo que, com indignação ou não, nunca, mas nunca, veria a luz do dia. No entanto todos se indignaram e arrancaram cabelos e rasgaram vestes porque os amigos dos animais corriam o risco de por lei só poderem ter dois canitos em casa. Sobre o orçamento nem uma palavra.

Ronaldo e Blatter, Margarida Rebelo Pinto e os cãezinhos, gatinhos e periquitos não passam das cortinas de fumo que falei no comentário anterior. Um país que se indigna com isto e aceita passivamente tudo o que lhe fazem, merece todos os Passos Coelhos deste mundo e arredores. E consegue que eu diga com tristeza que Portugal de facto não é a Grécia...

Thursday, October 31, 2013

Lia e Raquel e as Brumas que se levantam

"Se perguntarmos à imaginação de Jacob por quem servia, responderá que por Raquel. Mas se fizermos a mesma pergunta a Labão, que sabe o que é, e o que há-de ser, dirá com toda a certeza que serve por Lia. E assim foi. Servis por quem servis, não por quem cuidais." Padre António Vieira, Sermão do Mandato

Tenho andado à procura de forças para escrever sobre as propostas para o Orçamento de Estado 2014. Tenho andado à procura de forças mas não as encontro. O vazio de poder que há em Portugal é sufocante. Temos um Presidente que, mais do que o profissional circense (sem querer ofender tal actividade) que insinuaram que é, se revela o morto-vivo que nas ruas lhe chamam. Infelizmente dou comigo a pensar como seria bom não haver presidente, se calhar podíamos ter um rei à moda da Dinamarca, uma jarra bonita para levar em viagens ao estrangeiro, mas do qual se espera rigorosamente nada, no que a decisões políticas diz respeito. Aliás, está legalmente proíbido de as fazer! Sempre se poupavam uns cobres com as eleições a cada cinco anos, com o acumular de motoristas e escritórios e pensões de miséria (daquelas de 10 000 euros que não chegam para despesas) e o efeito prático era o mesmo. Exepto quando dá sinais de vida. Porque o nosso Presidente, de tão activo que é, precisa de dar prova de vida de vez em quando. Desta vez foi para dizer que tinha de pesar os custos de mandar o OE para o Tribunal Constitucional. Tudo porque o TC tem tido a ousadia de dizer que os OE que o governo do nosso Presidente fez tinham coisas que iam contra a Constituição. Como é mais do que expectável que o mesmo aconteça (pelo terceiro ano consecutivo), o Presidente já tem de pesar os custos.

Costuma-se dizer que à primeira todos caem, à segunda cai quem quer e à terceira caem os parvos. O nosso Presidente é, ao abrigo deste aforisma, parvo. Não há como fugir, é parvo. É parvo porque caiu uma, caiu duas e deixou-se numa posição em que cai uma terceira. Não há volta a dar. Se fosse vagamente parecido com uma figura neutra, após o segundo chumbo pelo TC de um orçamento, isto tinha ido tudo para eleições, onde ou a emergência nacional era tal que os lambões lá tinham a sua maioria para nos recolocarem (ainda mais) ao nível dos direitos do século XIX, ou então... Só que esse tipo de acção não se pode esperar de um homem que se relacionou e confia em altos quadros do BPN e da SLN e a forma como encobre toda a sua relação com estas entidades fala mais alto do que uma declaração escrita. Nascer duas vezes, pois! Acresce que o povo que nele votou é parvo também. Parvo, ou masoquista, porque foram quatro as vezes. Caríssimos, merecem tudo, mas mesmo tudo, o que vos acontece e o muito mais que está para vir!

Entretanto parece que os partidos da coligação se entretêm a mandar nevoeiro para não se falar muito do OE. Acho bem! Já viram se a malta dos cãezinhos e dos periquitos se mobiliza para defender os direitos das pessoas? Ou se os defensores da lei da co-adopção se preocupam com algo mais do que as fraldas? Já imaginaram mesmo uma sociedade em que nos preocupamos primeiro com as pessoas, seres humanos, o próximo apenas por ser o próximo? Tenho para mim que o programa da troika se arriscava a não ser o sucesso estrondoso que está a ser.

Sim, o sucesso, não ensandeci por ter dedicado umas linhas a esse insane D. Sebastião dos Algarves que meio país endeusa. Refiro-me ao sucesso porque a troika não veio para corrigir desequilíbrios, não veio para nos dar a justiça que não tinhamos, não veio para reduzir o desemprego, baixar o défice e outras baboseiras que para aí se pensam e dizem à boca cheia. E chegados aqui, chamo a citação do Padre António Vieira à conversa.

Confesso que a retirei um pouco de contexto, mas a explicação é tão válida para o amor, como para a troika. Caríssimos, diz-nos Vieira que não sofremos ou trabalhamos para aquilo que Pedro Passos Labão (ou ladrão, ou lambão, cada um leia o que entender) e que Labão Portas (mesmo parêntesis anterior) nos dizem. Essa Raquel, para a podermos sequer sonhar, teremos de trabalhar mais sete anos e sempre de borla. A Lia que nos prometem, após sete anos a trabalhar à borla é mais feia e não é aquela que nós queremos. Acontece que ao contrário da Bíblia, Lia não nos dá descanso para termos Raquel e Labão nunca gosta do que fazemos. Assim trabalhamos até aos 70, e mais além, para que Labão e Lia usufruam do nosso suor. É isso a que chamam Reforma do Estado. Li o capítulo 1.1 e perante o Guião para Perpetuação da Mentira e da Água Sacudida, não consegui ler mais. Por outro lado, como alguém já afirmou, se o que tem sido feito nos últimos tempos, com reformulação de RSI, para quem nem sequer todos os miseráveis usufruam dele, com redução de professores, de médicos, quadros qualificados, subsídio de desemprego, etc, não é reformar o Estado, então eu tenho medo, e todos devíamos ter, do que ali está contido. No fundo, pode ser apenas mais fumo que lança, para esquecer mais um orçamento que o não devia ser e que desta vez o vai ser em todo o seu esplendor!

Monday, September 30, 2013

Rescaldo eleitoral

Fazer leituras nacionais de eleições locais é claramente um acto que serve mais para massajar o ego de quem tem aqui o seu espaço vitorioso. Ou pelo menos assim devia ser. O facto de castigarmos o partido e nos afastarmos das pessoas e propostas, diz mais da cegueira que nos tolda e do nosso analfabetismo político do que qualquer conversa que possamos ter ou tratados que escrevamos. No fundo, esse tipo de clubismo e anti-clubismo explicam em grande medida porque chegámos ao que chegámos.

Nas autárquicas vota-se frequentemente numa cara conhecida, no sentido de mais próxima e muitas vezes partilhando os mesmos problemas. Ao contrário das legislativas, em que as caras em quem votamos são camufladas por uma grande figura nacional, nestas eleições escolhemos os principais responsáveis pelas pequenas coisas do dia-a-dia, desde o buraco nas ruas, até em alguns casos a primeira linha de acção contra as agruras que nos chovem de patamares mais altos da governação, gente como nós, na medida do possível. Este impacto e a sua importância são quanto mais importantes, quanto menos urbana for a autarquia em questão.

A proximidade não traz só vantagens. Pela sua proximidade esta gente como nós encontra-se também muito mais exposta à conversa de café e a um escrutínio mesquinho, a roçar o calunioso, que se diz de uma boca para um ouvido enquanto se bebe uma bica. Muitos desses casos de "diz que disse" ficam-se por essa mesma mesa de café, motivados mais pelas nossas invejas e frustações do que por um qualquer conhecimento real. Mesmo os casos mais motivados por tricas partidárias e a conquista dos votos flutuantes da freguesia, raramente têm consequências mais graves do que fazer esse voto flutuar ou chocar o estrangeiro (e aqui estrangeiro é o de fora da freguesia) que os ouve.

Alguns casos no entanto são mais fundados do que outros e acabam nas barras dos tribunais. Ora, com um conjunto de leis que favorece claramente quem tem tempo e dinheiro para deixar os processos arrastarem-se (daqui segue um caloroso abraço a todos os governos e deputados que têm tornado isto possível), a única coisa que é surpreendente é que algum autarca seja de facto condenado na barra dos tribunais. Menos provável ainda quando o autarca em cause dispôs de tempo para acumular o suficiente, em géneros e influências, para que o processo se arraste mesmo.

Ora este autarca hipotético não o é, ele existe, chama-se Isaltino Morais e, apesar do tempo que demorou, acabou mesmo por ser preso. Penso que o facto de Isaltino ter conseguido vencer um sistema construído para seu proveito, deve ter pesado sobremaneira nos eleitores de Oeiras que o escolheram para os próximos quatro anos. Sim, apesar de preso, Isaltino continuará a mandar e isso ficou bem patente ontem, desde os presentes no comício de vitória, em vários cartazes para as juntas de freguesia quem aparece ao lado dos candidatos à freguesia é Isaltino e o salão de festas da candidatura foi a prisão da Carregueira. Nem o candidato que deu a cara pelo presidiário escondeu o orgulho que era suceder a um condenado. Orgulho!

Na verdade estou em choque. Neste momento sei como se sentem os milhões de italianos que se recusam a votar Berlusconi e passam a vida a levar com a criatura. Quer dizer, no caso Isaltino nem sequer o contentor de recursos que pôde usar, e que em muitos casos levam a que haja pelo meio um juíz que anula todo o processo, o salvaram de ir passar uns tempos à Carregueira. Ou seja, a malta de Oeiras escolheu conscientemente ser governada por um criminoso. Mais grave, não é um criminoso do género "atropelou uma velhinha", é um criminoso cuja natureza dos crimes fazem com que um cargo de responsabilidade pública seja a última coisa que se lhe recomenda.

A originalidade da escolha de Oeiras leva-me a crer que Vale e Azevedo apenas não será o próximo tesoureiro municipal devido ao conflito de interesses com as actividades do presidente de facto. Já quanto aos envolvidos no caso Casa Pia, penso que os serviços de acompanhamento de menores estão prontos a acolhê-los como técnicos.

Falei ali em cima de italianos. Não foi totalmente inocente. A principal vitória da noite de ontem não pertenceu a qualquer força política, ela pertenceu a Portugal. Por uma vez encontramo-nos na vanguarda de algo: os italianos olham agora para nós e vêem o seu futuro. Um país em que apenas metade vai a votos e mesmo esses para elegerem o condenado com um cadastro que menos o recomenda para o cargo. Valha-nos o resto do país!

Wednesday, August 21, 2013

De Lapas e Sanguessugas

Para quem ainda desconhece a data, e tenho-me cruzado com várias pessoas que o desconhecem, dia 29 de Setembro há eleições autárquicas. Consideradas compreensivelmente como a face mais próxima da política, há quem veja nelas uma certa aura que as diferencia da "distante" política nacional. Claro que em ano de eleições, as primeiras em que vigora a limitação de mandatos, surgiu logo a oportunidade de se ver que essa diferença não poderia estar mais longe da realidade.

Chamei aqui, com a limitação de mandatos, a lei 46/2005, uma lei de dois artigos e três parágrafos. Ainda se pode pensar que o português empregue assume aquela forma de legalês que precisa de um lápis, um caderno de anotações e uma noite em branco para ser decifrado, mas, aos meus olhos de leigo, dificilmente poderia ser mais acessível e mais simples. Passo pois a transcrever o texto da mesma, para quem não quis seguir a ligação acima:


Lei n.º 46/2005, de 29 de Agosto
Estabelece limites à renovação sucessiva de mandatos dos presidentes dos órgãos executivos das autarquias locais


A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, o seguinte:
Artigo 1.º
Limitação de mandatos dos presidentes dos órgãos executivos das autarquias locais
1—O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos, salvo se no momento da entrada em vigor da presente lei tiverem cumprido ou estiverem a cumprir, pelo menos, o 3.º mandato consecutivo, circunstância em que poderão ser eleitos para mais um mandato consecutivo.
2—O presidente de câmara municipal e o presidente de junta de freguesia, depois de concluídos os mandatos referidos no número anterior, não podem assumir aquelas funções durante o quadriénio imediatamente subsequente ao último mandato consecutivo permitido.
3—No caso de renúncia ao mandato, os titulares dos órgãos referidos nos números anteriores não podem candidatar-se nas eleições imediatas nem nas que se realizem no quadriénio imediatamente subsequente à renúncia.


Artigo 2.º
Entrada em vigor
A presente lei entra em vigor no dia 1 de Janeiro de 2006.

Seguem-se as datas de aprovação, promulgação e referendo. 

Enquanto escrevo estas linha a página do parlamento não me permite aceder ao Diário da Assembleia da República do terceiro trimestre de 2005, por forma a ver o que foi debatido e quem votou (e como) a supra-citada lei.

Ora, reconhecendo na lei um certo paralelismo com a limitação de mandatos do Presidente da República (que salvo erro está consagrada na Constituição), qualquer destas figuras, que a voz corrente trata por dinossauros autárquicos, iria para casa gozar a sua sabática e voltaria daí a quatro anos, se tal desejasse. Só que tal não foi o desejo de muitos! Encorajados pelos aparelhos partidários, vai de concorrer à câmara do lado. Quando os tribunais ameaçaram bloquear à partida estas candidaturas, mais uma vez os aparelhos dos partidos acorreram em massa, garantindo mundos e fundos e recursos até que a decisão dos tribunais se assemelhasse a algo mais de acordo com o interesse em ocupar um cargo público ad eternum.

Pelos vistos a língua portuguesa, mais do que um acordo ortográfico, necessita de chegar a acordo sobre o que as palavras querem dizer. Digo-o porque houve juízes que validaram candidaturas que violam os princípios que eu interpreto nesta lei. Pode ser que seja preciso ver as palavras à luz do "espírito da lei". Ora esta lei não foi feita para que se incentivasse a renovação da classe política? Ora esta lei não existe para que seja mais fácil a todos terem acesso, mesmo que em teoria, à possibilidade de exercerem um cargo público? Dessa forma, como pode haver, quer lendo a letra, quer tendo em conta o espírito da lei, um juíz que valide candidaturas de candidatos que violam esta lei?

Torna-se difícil fazer aqui uma defesa da nossa justiça e de quem a deve aplicar! Um juíz que complica uma lei tão simples, para lá de levantar suspeitas quanto ao seu engajamento político, presta um mau serviço à justiça. Esta lei existe para que caras novas e/ou ideias novas surjam. No limite da desilusão, serve a presente lei para que um cidadão se ofereça a si mesmo um mês ou um mandato de inocência, um tempo em que haja a ilusão de que "estes são diferentes".

Diferença essa que um autarca que acede a este mecanismo não se esforça por esbater. Tão mau como o juíz que o valida é o autarca que recorre a este expediente. O autarca que a tal recorre revela a sua personalidade de lapa, uma criatura tão agarrada ao lugar que recorre a todos os expedientes para lá ficar. Um autarca que recorre a estes expedientes é uma sanguessuga, pronta a chupar os recursos em seu redor para massajar um ego e/ou encher umas contas bancárias. Os portugueses que votarem nesta gente são cúmplices dos seus crimes futuros, e moralmente condenáveis por o fazerem. Podem ter o direito, mas não têm qualquer réstia de moral para vir reclamar depois, isto porque votaram plenamente conscientes do que esses candidatos tinham para oferecer: uma constante busca pelo buraco legal e a deturpação da lei, para proveito próprio.

Friday, August 16, 2013

As irrevogáveis palavras dos nossos carrascos. 3/3

A terminar o comentário ao mês de Julho, seguem umas palavras sobre o mais mal amado de todos os ministros. Falo é claro de Álvaro Santos Pereira, o homem que me fez concordar com uma crónica do Henrique Raposo que não aborda o Benfica.

De certa forma os crimes de Álvaro prendem-se com palavras irrevogavelmente ditas, daí que seja agora uma boa altura para os relembrar, mas não sem antes notar que todos os elogios que se lhe façam nesta altura soarão a epitáfio. Aliás, basta ver como aqueles que indirectamente o trucidaram enquanto ministro e lhe esvaziaram as competências para realizar com sucesso a sua tarefa, se apressaram a elogiar o trabalho desenvolvido. Como sou daqueles que sempre disse que podia até não concordar com as políticas, mas que gostava mais do homem do que de todo o restante executivo, não me sinto a fazer um elogio fúnebre à pessoa. Talvez à política portuguesa, mas essa, como alguns dos seus representantes, já morreu tantas vezes que fica sempre a dúvida se não terá um poucoxinho de zombie.

O primeiro crime de Álvaro terá sido, logo nos primeiros dias, o ter abdicado do título de ministro no tratamento com os seus colaboradores. Num país de engenheiros de domingo e equivalentes doutores, facilmente se percebe o porquê. A sensação clara que fica é que a partir do momento em que Álvaro, membro de um governo que tem como função vincar bem fundo na sociedade portuguesa a existência de duas classes sociais (os que tudo-têm e os que tudo-lhes-falta), arriscou um trato de informalidade, em que abdicou das vénias, abdicou de ser um iluminado para se colocar ao mesmo nível da sua equipa, então Álvaro tornou-se um perigoso revolucionário que teria de ser abatido.

Talvez por isso, qualquer coisa que Álvaro disesse teria de ser alvo de chacota. Veja-se o segundo pecado capital de Álvaro: querer que Portugal criasse uma imagem forte que pudesse vender. Aliás, a ideia de Álvaro é tão inovadora que só quem nunca saiu da sua gruta ou da sua toca não lhe reconhece o valor. Para os que estão nesta situação explico que por entre os três países em que já vivi, e os outros dois ou três que visito regularmente, nunca me faltou ninguém que desconhecesse as tapas ou as paellas espanholas, a moussaka dos gregos, as pastas e as pizzas italianas, os vinhos franceses, as salsichas e as cervejas alemãs, as versões americanas de quase tudo o anterior, enfim, cada país arranjou algo que exportou como a sua imagem, que serve como identidade na altura de criar uma associação entre um produto e o país e que lucra com as pessoas que voam para esses países para experimentarem o "original". Eu, que não percebo nada de marketing, percebi o que ele queria dizer e aplaudo. O coro de críticos que se levantou contra o "pastel do Álvaro" é o equivalente dos que, quando lhes apontam a Lua, comentam o dedo que aponta.

Para lá do que disse, Álvaro também cometeu o pecado de manifestar emoções, em particular boa disposição de espírito. Falo, como se devem recordar, do episódio do Borda de Água. Esse terá sido o momento em que o destino de Álvaro ficou selado. Rir-se de um colega ministro, enxovalhado, como que a validar o enxovalhamento, é crime capital neste governo de gente séria (ou não houvessem ligações várias a contratos lesivos para o Estado e à SLN, passe a redundância).

Álvaro Santos Pereira, mostrou, ao longo dos seus anos, vários crimes capitais de quem está desligado do mercado português. Quiz atacar as rendas estabelecidas, não alinhou no bajulamento indígena, tem uma ideia de como crescer para fora, e não ficar confortavelmente no seu sofá e revelou um traço de humanidade raro em governantes (só isso justifica que o video da risota tenha sido viral). Felizmente agora temos um ministro da Economia que não padece de nenhum dos males e fará vir a nós o Quinto Império. Graças a Deus!